Mastite subclínica: quais são os reais impactos na produção e composição do leite?

Seja afetando os resultados do produtor ou reduzindo a qualidade do leite, são inúmeras as influências da mastite subclínica e da alta contagem de células somáticas no rebanho.

A mastite subclínica é um problema recorrente nas fazendas leiteiras e impacta tanto na saúde das vacas como na rentabilidade do produtor. Com relação à produção leiteira, ela afeta qualitativamente e quantitativamente e o controle da doença deve ser levado à risca visto que:

  • vacas com mastite subclínica podem transmitir bactérias para vacas sadias;
  • os casos podem evoluir para um quadro clínico;
  • há comprometimento permanente do tecido mamário e;
  • o leite é penalizado pela indústria na outra ponta da cadeia.

Diante disso, fica evidente a importância de desenvolver estratégias para monitorá-la e controlá-la no rebanho. 

Considerada a forma mais frequente de mastite, a subclínica representa aproximadamente 90 a 95% dos casos e as bactérias causadoras podem ser tanto contagiosas como ambientais. Essas, são nocivas ao tecido epitelial que secreta o leite e podem impactar de maneira permanente a produção e a composição leiteira, fato que reflete em perdas econômicas. 

Em uma pesquisa realizada nos Estados Unidos a redução na produção de leite na lactação total foi de 155 kg para primíparas e 455 kg para multíparas. Vale pontuar que uma pior saúde do úbere é esperada em multíparas no decorrer da lactação e isso ocorre pela exposição prévia aos patógenos causadores de mastite que podem resultar em danos permanentes na glândula mamária das vacas. Isso faz com que as perdas de produção também sejam sentidas nas lactações seguintes, comprometendo a produção total dos animais.

Em um outro estudo conduzido no Brasil com vacas da raça Holandesa confinadas as perdas foram de 1.092 kg/lactação em multíparas e 270 kg/lactação em primíparas. Essas informações reforçam a importância de medidas de controle para a redução de casos. 

As células somáticas

Majoritariamente, as células somáticas são compostas por leucócitos que migram do sangue ao úbere para auxiliar no combate de uma infecção, situação que permite que a sua contagem seja ponto-chave no monitoramento do processo inflamatório da glândula mamária. Além de reduzir a média de dias em lactação do rebanho, o aumento da CCS (Contagem de Células Somáticas) também influencia negativamente na taxa de prenhez e eficiência reprodutiva, maior mortalidade e descarte de animais.

O padrão de diagnóstico é o valor de 200 mil células por mililitro, ou seja, acima desse valor, é um indicativo que a vaca está reagindo ao patógeno e necessita de atenção. Abaixo desse valor, a vaca é considerada sadia.

Como na mastite subclínica o animal não apresenta sinais clínicos, além da CCS, é essencial que a fazenda abra mão de outras alternativas com o objetivo de rastrear a mastite subclínica, como o uso do CMT (California mastitis test). Esse teste identifica vacas doentes, inclusive, ele auxilia nos primeiros direcionamentos do que fazer com aquele animal quando o resultado está alterado. Basicamente, o CMT consiste no uso de uma raquete contendo quatro cavidades e um reagente. 

Uma outra ferramenta é a cultura microbiológica na fazenda, pois ela identifica as fontes de infecções e os patógenos responsáveis pela mastite, selecionando as vacas que realmente necessitam de atenção. 

E como a CCS interfere na composição do leite e na produção de laticínios?

A CCS se relaciona diretamente ao rendimento do leite para a produção de laticínios. Uma das principais razões para reduzir a CCS no plantel ocorre porque seu aumento se associa com alterações nas concentrações dos principais componentes do leite (proteína, gordura, lactose e sólidos totais), influenciando diretamente na qualidade dos derivados.

Este fato ocorre basicamente por três motivos:

  • lesão do epitélio secretor pela ação dos microrganismos que causa redução na síntese dos componentes do leite; 
  • aumento da permeabilidade vascular, aumentando assim a passagem de substâncias do sangue para o leite e; 
  • ação de enzimas originárias das células somáticas e dos microorganismos presentes no leite. 

Análises científicas apontam que na medida em que se aumenta a CCS, há redução no percentual de sólidos de grande importância como gordura, caseína e lactose. Ao mesmo tempo, elementos indesejáveis como cloro, sódio e proteína sérica tem as suas concentrações aumentadas. 

Na literatura, encontram-se diversas publicações apontando como a CCS alta impacta negativamente na fabricação de todos os derivados lácteos,  (principalmente, no tempo de prateleira) desde queijos, até o leite UHT. Com relação a este último, por exemplo, ele tende a geleificar mais rápido que o leite padrão, o que significa que fica mais viscoso e consequentemente, menos fluído e impróprio ao consumo. É por isso que o produtor de leite sente no bolso essas consequências já que a indústria deixa de bonificá-lo pela entrega de uma matéria-prima de maior qualidade. 

Sobre o iogurte, o leite com alta CCS pode também inibir a multiplicação dos microrganismos utilizados devido principalmente aos altos níveis de substâncias antimicrobianas no leite com alta CCS, tais como, lactoferrina.

Amostras de leite de vacas com mastite contendo a) <200.000; b) 200,000-600.000 e c) > 600.000 cels/mL foram utilizadas para a fabricação de queijo tipo Minas Frescal. Observou-se no experimento que o uso do leite com alta CCS para fabricação de queijo resultou no prolongamento do tempo de coagulação. O queijo final apresentou menor acidez (resultando em alteração do sabor) e maior perda de gordura e proteína solúvel através do soro. Em suma, o leite com alta CCS resultou no menor rendimento na fabricação de queijo (9,81%) quando comparado com o leite com baixa CCS.

São por essas e outras inúmeras questões que a fazenda leiteira necessita de conhecimento e suporte para que a CCS do rebanho se mantenha controlada nos animais de produção. Seus estragos são notáveis e podem ser evitados com condutas palpáveis e aplicáveis. 

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O que lemos para escrever esse artigo: 

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  • COLDEBELLA, A.; MACHADO, P.F.; DEMÉTRIO, C.G.B. et al. Contagem de células somáticas e produção de leite em vacas holandesas confinadas. Rev. Bras. Zootec., v.33, p.623-634, 2004.
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  • SANTOS, M. V. Efeito da mastite sobre a qualidade do leite e dos derivados lácteos. In: CONGRESSO PANAMERICANO DE QUALIDADE DO LEITE E CONTROLE DE MASTITE, 2, 2002. Ribeirão Preto, Resumos, Instituto Fernando Costa, Pirassununga, 2002. 3p.
  • SANTOS, M.V; GONÇALVES, J.L. Mastite subclínica reduz a produção de leite e o retorno econômico, MilkPoint, 2017. Disponível em: < https://www.milkpoint.com.br/colunas/marco-veiga-dos-santos/mastite-subclinica-reduz-a-producao-de-leite-e-o-retorno-economico-206198n.aspx>. Acesso em: 26/06/2022. 

Autora do artigo:

Raquel Maria Cury Rodrigues, zootecnista pela Unesp de Botucatu e especialista em Gestão da Produção pela Ufscar. 

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