Leite com grumo e cultura microbiológica negativa, é possível?

Brunna Granja
Med Vet – Central Atendimento OnFarm

 

Na rotina da fazenda, pode ser encontrado casos de vacas com mastite clínica (MC), com presença de grumos, porém com resultado negativo (sem crescimento de microrganismo) na cultura microbiológica. Um estudo realizado no Brasil, observou que 44% das amostras de MC avaliadas apresentaram cultura microbiológica negativa (Tomazi et al., 2018), da mesma forma outro realizado em fazendas em Wisconsin nos EUA observou 42% das amostras sendo negativas(Pinzón-Sanchez e Ruegg, 2011).

Qual seria o motivo da ocorrência desses casos?

Diferentes fatores podem influenciar a MC e a presença de cultura negativa, sendo alguns deles:

 

  • Sistema imune da vaca pode ter eliminado o patógeno, apresentando cura espontânea, no entanto algumas bactérias mesmo depois de serem eliminadas do organismo, deixam sua toxina, o que ainda pode causar algum sinal clínico de inflamação na glândula mamária, e por consequência na aparência de grumos no leite;

 

  • Congelamento da amostra até a realização da cultura microbiológica, pode reduzir a sensibilidade do exame, visto que algumas bactérias podem morrer durante esse processo, principalmente em amostras de MC e para patógenos Gram-negativos, como a Escherichia coli. Com a cultura sendo realizada na própria fazenda, esse problema diminui;

 

  • Presença de patógenos que não se desenvolvem em métodos de cultura microbiológica tradicionais como a bactéria Mycoplasma. No entanto, esses casos são de baixíssima prevalência, como é visto em alguns estudos realizados no Brasil (1,12 – 1,4%) (PRETTO et al., 2001; MANZI et al., 2018), e não são responsivos a antibioticoterapia.

 

  • Inflamação causada por trauma físico, sem a presença de infecção causada por patógenos;

 

Nesses casos, como proceder? 

 

Geralmente, mais de 90% dos casos de MC com cultura negativa apresentam desaparecimento dos grumos em até 2 dias após a detecção da mastite sem realização de qualquer tratamento. Desta forma, os casos de MC com cultura negativa podem ser acompanhados sem a necessidade imediata do tratamento com antimicrobianos. Alternativamente nestes casos, pode ser adotada a aplicação de anti-inflamatórios não esteroidais, e o tratamento com antimicrobianos podendo ser realizado apenas em casos de agravamento dos sintomas clínicos ou em que a presença de grumos permaneça por períodos maiores do que 2 dias. É importante observar o histórico clínico desses animais, a recorrência desse tipo de caso de MC e seguir sempre a recomendação do consultor responsável pelos tratamentos de mastite realizados na fazenda.

 

 

MANZI, M.P., et al. Prevalência de Mycoplasma bovis em rebanhos de vacas leiteiras. Pesquisa Veterinária Brasileira, v.38, p.665-669, 2018.

TOMAZI, T., et al. Association of herd-level risk factors and incidence rate of clinical mastitis in 20 Brazilian dairy herds. Preventive Veterinary Medicine, v. 161, p. 9-18, 2018.

 

PINZON-SANCHEZ, C.; RUEGG, P.L. Risk factors associated with short-term post-treatment outcomes of clinical mastitis. Journal of Dairy Science, v. 94, p. 3397-3410, 2011.

Pretto L.G., et al. Mastite bovina por Mycoplasma bovis em rebanhos leiteiros. Pesq. Vet. Bras. v. 21, p. 143-145, 2001.

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