Uso de anti-inflamatório cetoprofeno em casos de mastite clínica leve: Vale a pena?

Casos de mastite clínica (MC) são um dos principais motivos de uso de antibióticos em fazendas leiteiras. No entanto, hoje sabemos a importância de identificar o agente causador da mastite antes mesmo do início do tratamento, visto que até 50% dos casos de MC podem apresentar cultura microbiológica negativa.

Isso significa que, se não tivermos a confirmação do agente causador da mastite através da cultura microbiológica, pode haver o uso excessivo (e muitas vezes) desnecessário de antibióticos nos tratamentos. Como resultado disso, surgem métodos alternativos de tratamento de casos leves de mastite clínica – e um dos mais utilizados para o tratamento de casos de MC é o anti-inflamatório cetoprofeno.

 

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Cetoprofeno no tratamento de mastite clínica leve

Para o auxílio na diminuição dos sinais clínicos e manutenção do bem-estar animal, há a opção de utilizar anti-inflamatórios como aliados no tratamento, principalmente em casos de MC moderados ou graves.

Um estudo realizado por Latosinski e colaboradores na UNESP de Botucatu-SP e publicado em 2020 pelo Journal of Dairy Science teve como objetivo avaliar a eficácia do uso do anti-inflamatório cetoprofeno em casos de MC de grau leve, com cultura microbiológica negativa e não tratada com antibióticos.

Foram utilizadas amostras de três rebanhos leiteiros dos estados de São Paulo e de Minas Gerais. As fazendas tinham pelo menos 200 vacas em lactação e faziam uso do método de cultura microbiológica na fazenda para todos os casos de MC. Foram incluídos no estudo os casos de MC leve (apenas com presença de grumo/alteração no leite) com cultura microbiológica negativa, não tratados com antibióticos previamente.

 

Os 123 animais incluídos foram separados em dois grupos:

  1. Tratados com 3mg/kg de cetoprofeno via intramuscular (65 animais);
  2. Não tratados (58 animais).

 

O acompanhamento dos animais ocorreu durante 7 dias após o início do estudo, para identificação de cura clínica ou de piora do caso, e ainda assim foram coletadas amostras de leite 14 e 21 dias para posterior análise microbiológica e de contagem de células somáticas (CCS).

Para isso, foram avaliados parâmetros como:

  • Cura clínica – desaparecimento dos sinais clínicos dentro de 7 dias após a inclusão no estudo;
  • Recidiva de MC – cura clínica seguida MC dentro de 14 dias após a inclusão no estudo;
  • Recorrência de MC – cura clínica seguida MC dentro de 15 a 90 dias após a inclusão no estudo;
  • Risco de nova infecção intramamária – isolamento de patógenos por cultura microbiológica de 14 a 21 dias após a inclusão no estudo;
  • CCS de quarto mamário (log10 cél./ml) dentro de 14 a 21 dias após a inclusão no estudo.

 

Os resultados observados não foram muito diferentes entre os grupos tratados e não tratados. Em relação à chance de cura clínica, foi observado 83,08% para o grupo tratado e 91,23% para o não tratado.

Quanto à recidiva de MC, o risco foi de 19,23% para o grupo tratado e 18% para o não tratado. Para recorrência de MC o grupo tratado apresentou 17,31% e o não tratado 18%, da mesma forma o risco de uma nova infecção em até 14 dias foi de 20,75% e 29,79%, e em até 21 dias foi de 28,57% e 15,22%, para os grupos tratado e não tratado, respectivamente.

Nos casos de novas infecções até 14 dias para ambos grupos, o principal patógeno encontrado foi Staphylococcus coagulase negativo, já até 21 dias para o grupo tratado o Streptococcus spp. foi o mais prevalente e para o não tratado o Staphylococcus coagulase negativo. Quanto à CCS, não foi observado aumento ou diminuição em ambos grupos.

 

Vale a pena usar cetoprofeno para MC?

De forma geral, os resultados do estudo mostraram que uma única aplicação intramuscular de cetoprofeno como único tratamento em casos de MC leve, ou seja, apenas com presença de grumos e alterações visuais no leite e com cultura microbiológica negativa, não apresentou diferenças quanto à redução do tempo para a cura clínica, recidiva ou recorrência do caso de mastite.

Da mesma forma, não foi observada uma diminuição no risco de uma nova infecção intramamária na lactação subsequente ou diminuição da CCS no leite quando comparado ao grupo controle de animais não tratados.

No entanto, entendemos que a maioria dos casos de MC leve e com cultura microbiológica negativa, os animais conseguem se recuperar de forma espontânea, sem o auxílio de nenhum tipo de tratamento, o que de fato foi observado no estudo citado.

Por fim, foi concluído que o uso de anti-inflamatórios pode ser mais eficiente em caso de MC moderada, onde há sinais mais intensos de inflamação como dor, vermelhidão e inchaço no úbere, assim como em casos graves onde pode ser associado ao tratamento com antibióticos, auxiliando na recuperação do animal e na manutenção do seu bem-estar.

 

Fonte: G. S. Latosinski, M. J. Amzalak, and J. C. F. Pantoja. Efficacy of ketoprofen for treatment of spontaneous, culture-negative, mild cases of clinical mastitis: A randomized, controlled superiority trial. Journal of Dairy Science, v.103, 2020.

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